Arian Merk. Um estranho entre estranhos. (pt.2)

Arian não sabia ao certo como ia parar nos lugares, ou quando. Ele era um rapaz tão aéreo ao mundo que muitas vezes fazia coisas automaticamente e sem se dar conta disso. E ali estava ele, naquele lugar cheio de pessoas estranhas, com olhares estranhos e posturas estranhas. No fundo ele tinha uma resposta para aquilo tudo que estava ao seu redor. Sim, era tudo muito familiar para si, mas o rapaz simplesmente não conseguia lembrar-se de imediato. Ele não tinha nada mais a fazer, então manteve sua caminhada sem rumo.

Logo as coisas pareciam estar mais claras para Arian. Ele olhou e respirou fundo enquanto tentava raciocinar sobre tudo aquilo. Uma resposta de súbito: ele estava no colégio! Grande descoberta, pensou ironicamente. Era algo tão banal que se sentiu envergonhado por sua completa estupidez, afinal, não era todo dia que pessoas, principalmente jovens da sua faixa etária, esqueciam do lugar mais freqüentado na juventude. Para muitos o pior período; para outros a melhor fase da vida; para poucos, muito poucos que se pode até dizer que Arian era um dos únicos, algo tão insignificante que lhe fugia à cabeça.

Decidiu, então, ficar um tempo parado encostado na parede e observar a movimentação dos outros. Cada um que passava à sua frente parecia ser uma repetição de imagem; um filme eterno; apenas mais um na multidão; apenas uma formiga insignificante perante um formigueiro infinito. Perguntou-se se também fazia parte daquilo tudo. Olhou para seus pés e viu um tênis preto com detalhes em azul e laranja; seguiu seu olhar corpo acima. Nada de mais. Apenas uma calça jeans, uma camisa branca de mangas longas, um cordão com formato de coração em chamas, algumas pulseiras no braço esquerdo. Nada mais. Nada que fizesse algum sentido aparente até para ele próprio.

De súbito, uma sirene tocou, e logo Arian deu-se conta de que aquilo o dizia fazer algo.

Um pensamento óbvio:

Se eu estou numa escola isso significa que eu “quero” estudar, ou pelo menos alguém quer que eu o faça. Essa sirene certamente está me mandando fazer isso, o que me significa que eu tenho que ir para uma sala. Mas qual é a minha sala mesmo?

Essa era um questão relevante, mas com várias soluções. Ele podia ir à diretoria (onde quer que fosse – uma situação com uma solução mais simples ainda) e perguntar onde ficava sua sala, ou entrar em cada sala até achar a sua de fato. Refletiu por um tempo sobre as duas opções e concluiu que a segunda lhe parecia mais plausível simplesmente porque a primeira lhe pouparia saliva.

Entrou em várias salas em pouco menos de dez minutos, mas nenhuma se mostrou compatível com Arian, e aquilo já começava a irritá-lo. Paciência! Era o que precisava. Algumas tentativas mais – assim como salas – e o jovem entrou numa sala bem promissora. O motivo? Um garoto e mais duas garotas o olharam e rapidamente desviaram o olhar. Isso fugia ao padrão que havia notado no curto tempo de observação daquela manhã: ele parecia ser um total fantasma para a multidão.

E aquela sala era um uma excessão.