Aurora.

Ela veio e disse “eu te amo”. Nada. Pensou melhor e “não há nada mais importante nesse mundo que a sua existência.” O vento zombou da garota com um suspiro gélido em sua nuca. Palavras são vazias demais agora, pensou. Seus atos também não mais importavam. Estremeceu. O ser humano é afinal incapaz de amar verdadeiramente; era algo utópico demais. Até seus motivos para sentir aquilo eram egoístas: sempre tivera medo da solidão. Oras, o amor não é um tapa buracos! Ele é toda uma avenida.

Era dolorido saber que seus sonhos eram infundados. Nem ela podia ser digna deles! Olhou para aqueles olhos metamórficos os quais a encaravam surpresos e, se pudessem, boquiabertos. Tentou reverter a situação com um sorriso tímido, até idiota. Nada. Havia mesmo assim uma esperança, pois por trás do nada há um não ser algo, uma negação, um motivo, afinal. De qualquer modo, o a garota estava tremendo muito com as conseqüências daquilo tudo.

Qual o seu medo? O que perderia? Era só mais uma pessoa especial da qual tentava (inconscientemente) livrar-se com seus aspectos niilistas. Talvez quisesse sofrer um pouco para poder produzir versos românticos. A vida pela arte. “Orgulhe-se disse, pelo menos”. “Adeus, até que a aurora de minha vida desapareça enfim.”

(…)

Ele agora imaginava aquele olhar alegre que tanto o encantou. De súbito lembrou-se de um sorriso nervoso do passado, e depois um abraço esquecido aqueceu-lhe a alma. O rapaz rendeu-se ao destino aos prantos. Sua culpa por existir destruiu suas lembranças mais alegres, e agora ele encarava o horizonte como se não tivesse limite algum em suas intenções.

Muito tempo passou, e aquele pobre garoto era agora um mero estranho para si. Tinha cabelos prateados e longos a refletir a luz do sol. Uma aura de sabedoria oculta podia ser sentida junto a ele. Aquele homem já acreditara em algo. O problema é que este “algo” não o escolhera para entendê-lo. Uma culpa por suas escolhas do passado pesavam em seu caminhar. Mais um tolo falha na busca pela felicidade.

O banco no qual estava sentado fazia parte do cenário de uma bela praça. Logo uma nuvem denunciou uma terrível tempestade que estava por vir. Adorava chuvas, principalmente quando havia trovões assustadores, pois de alguma forma aquilo trazia paz para si. Um jato de luz rompeu os céus, e alguns segundos depois um grito celestial cortou o meio material. O Homem estava no chão gemendo. Balbuciava algumas palavras num tom suave: “tenho medo de trovões; tenho medo de trovões; trovões não; trovões não.”

Não era ele. Nunca fora ele. Sempre foram os outros.