Novas impressões passadas.

 

Eu nem queria fazer muito isso, mas o meu subconsciente mandou avisar que era algum tipo de obrigação de escritor. Quanta audácia! Escritor. É, gostei disso, soa tão importante e meu – só meu; minhas ideias simplesmente escritas; tão fácil. Isso já pode ser considerado uma parte importante sobre esse ano: eu decidi abraçar de vez as letras; amá-las incondicionalmente, apesar de ainda sofrer de algum desvio intelectual que me faz escrever de menos – bem minguado mesmo, admito. Porém, eu me permito uma desculpa. “É, Rodrigo, foi muita coisa pra uma cabeça só… Uma cabeça assim tão complicada, tão eu – lírica”.

Eu nunca liguei muito para finais de ano. Pra mim a coisa toda era mera impressão, pois de forma geral os anos eram sempre muito parecidos, tanto que eu poderia até me perder no tempo. E me perdi várias vezes. Isso não significa exatamente esquecer uma data. É algo mais profundo, como se esquecer de viver intensamente, ou até esquecer-se de viver mesmo. Na maior parte do tempo era como eu estar em coma, acho. Eu acordava de vez em quando, mas o que fazer com isso? Não sabia, isso não estava nos livros, pelo amor de deus; ou, se estava, não bastava. “Rodrigo, a vida não é exatamente um poema escrito. Ela é o poema do suor, da lágrima, do sangue… Da dor e alegria vivas a pulsarem no coração”.

Caramba… O que é ver um ano assim ir embora? Foi uma verdadeira apoteose! E, de repente, ele se foi. Porém, o mais interessante é que parece que ele já acabou uma vez: quando eu finalmente me dei conta que minha vida de colegial havia chegado ao fim. Nada traumático. Senti apenas uma dor gostosa – bah, era o início da saudade – e o velho friozinho no estômago. Nossa, não era um fim de um ano apenas. Era o fim de uma história. Quatorze anos em um momento singular de despedida, assim se pode dizer… Tantas histórias e estórias [de serenata] – parafraseando meu avô poeta. Amei, odiei, deixei de amar e reconsiderei o ódio – ele não tinha culpa mesmo das coisas darem errado. Cresci muitos centímetros e muitos pensamentos – que regência bizarra essa minha última. Chorei muito quando ninguém podia ver – só assim para não congelar mesmo -, e escrevi muito sobre mim para ninguém, talvez para a tal vida. Por falar nisso, cartas são minhas especialidade [meio inútil, ao que parece]. Muitas vezes também escrevi para alguens de carne, pele, sangue e alma – bem arcaico, mas é o que eu sei fazer de melhor. Enfim, muitas aventuras e desventuras.

Ontem eu comentei algo com uma amiga (Juliana, é você!): o passado é o nosso amor mais platônico. É grudento, é Crepuscular – entenda isso como uma referência à série Crepúsculo -, e, por isso, cansativo. Nosso cérebro trabalha na maior parte do tempo com uma referência passada. Medos, motivações, ideias etc. Imagine que um bebê de 10 meses come barata – eu fiz isso infelizmente. Ele não sabe o que maldição é uma barata, então não tem nada contra ela, até descobrir que aquilo tem zilhões de bactérias e que a meleca branca do bicho é algo considerado nojento – e é mesmo. Os exemplos tornam-se mais complexos com o passar dos anos. Um “não” ou um “sim” mal pensados; morar num apartamento sem crianças para brincar; um filme de terror idiota; muito Power Ranger alugado. Muita coisa pode ser uma grande frustração, mas acho que reclamar não é algo muito produtivo, já que tudo isso são lembranças que de alguma forma definem algo na vida.

Com todos os defeitos a vida é uma grande merda mesmo, mas acho que por que é por isso que vale a pena vivê-la. Até agora eu tenho muita coisa que reclamar, mas muita coisa para agradecer. “O beijo de amor que não roubei” pode significar no melhor beijo de todos depois. Um 4 numa prova de geometria muitas vezes faz a pessoa acordar pra vida e deixar de “senvergonhisse”. “Se meus joelhos não fossem tortos, eu não andaria com os pés 15 para as 3”. Ficar pensando que uma coisa poderia ter sido assim ou assado não funciona, afinal algo bom poderia ter sido perdido. Melhor, algo de Você seria alterado, e a coisa iria longe. Assim, a vida continua com muitos anos virados e nunca mais iguais.

Eu normalmente fico um pouco frustrado com a ceia de ano-novo, pois não posso comer galinha por esta, infelizmente, ciscar. Mas tudo bem, porco é bom demais mesmo… De qualquer forma, nesse ano de 2011 vou tentar treinar uma galinha que cisque para frente. Talvez assim eu tenha galinha na primeira ceia do ano que vem.

Espero tomar muito suco de acerola com pão massa grossa… É assim que me embriago e tenho epifanias.