Arian Merk pt. 5 – Considerações.

Olhos plenos. Respiração falha. Mãos em franca agitação. O suor que teima em transpirar pelos poros para de alguma forma apaziguar todo aquele frenesi flamejante. Toda a energia nervosa em um único momento, despendida em emoções confusas, porém concentradas. Medo, repulsa, vergonha, alegria, desejo de fazer aquilo desaparecer e simplesmente seguir com sua vida simples de sorrisos, palavras rápidas e frases incompletas. Era fácil viver daquela forma, pois o perigo não encontrava, ali, uma estadia tranqüila. Ele não a atormentava de forma alguma.

E, ali, num papel meio consumido pelo peso de seu conteúdo e amassado pela incerteza de um gesto, estava algo extremamente perigoso: palavras profundas, instáveis e trêmulas de um pensamento confuso. “Estou partindo, adeus… Desculpa, eu não pude fazer mais nada, nem quis fazer coisa alguma no final das contas.” É, finalmente o inevitável resolveu aparecer e expor tudo o que deveria ficar escondido. Por que era tão difícil admitir algo assim tão óbvio e fácil?

– Ei, por favor, não vai assim…

– Desculpa, eu preciso ir. Você sabia que mais cedo ou mais tarde eu partiria, não importa se sozinho, para o mundo. O mundo precisa de mim, e eu preciso do mundo.

– Mas eu preciso de ti aqui… Agora eu sei!

– Eu sinto muito se estou sendo frio agora… Logo agora que você está aqui desse jeito. Mas eu fiz o que pude nesse tempo e… Desculpa, não posso mais…!

Ela tentou dizer mais alguma coisa, mas não conseguiu nada além de um débil “Eu te amo”.

– Eu… Eu te… Te…

“Oras, vão encher o saco de outro com essa porcaria!” Fora assim que Arian despertara de seu sono de olhos abertos. Isso já era de praxe nas últimas duas semanas em que estivera penosamente preso àquela cama com cheiro de coisa nova. Era mais um estado de espírito do que um adormecer propriamente dito, um sublime momento de concentração viajante. Naquele caso, a televisão havia sido deixada ligada depois da última visita de seus pais e pessoas aleatórias – pelo menos era assim que ele as via. Na verdade ele só sabia que parte do grupo de visita era composta por seus familiares porque uma voz bondosa de enfermeira o informava; o resto acabava sendo mero resto mesmo.

Não tinha muita certeza de nada que estava acontecendo naqueles tempos. Muitas vezes ele simplesmente tinha a simples consciência de que estava acordado e de que ainda existia de alguma forma. Sua visão era turva, sua audição uma tortura e seus sentidos de toque eram apenas meras sensações. Era como flutuar pelos céus ao som de uma péssima música. E não sabia por que estava internado há tanto tempo. Pelo menos aquilo o libertava da ida e vinda da escola e alçava uma nova perspectiva de rotina.

Sua vida sempre parecera externamente sem graça, mas para Arian aquilo nunca fora muito importante mesmo. Importava-se apenas com seu submundo de consciência. Tinha para si que isso bastava, pois sentia que a mente era o único lugar exclusivamente dele. Era certo que sua vida social impelia certos determinismos comportamentais, mas era apenas uma parte de sua vida – a menos importante por sinal. Seu verdadeiro mundo era em si e para si. Tudo na devida medida e sem inconstâncias deliberadas. Era ele, e raios que explodissem o mundo.

– Já vou.

– Por favor, se algum dia voltares, me procure.

– Talvez. Mas acho que não voltarei eu, mas apenas uma sombra do que possa ter sido nesses dias.