Ouça.

Certo dia prometi a mim mesmo que bastava de textos sentimentais. Pois é, mera ilusão de novo – falar isso nunca deixa de ser cansativo. Sempre há uma emoção à espreita, mal correspondida, mal vestida, cheia de água nos olhos prestes a despencar. Num movimento brusco e impensado, talvez, ela se liberta e põe-se a falar desembestadamente. E fala, fala, fala. Enche meus ouvidos com suas reclamações cotidianas. Mas as circunstâncias não me permitem um minuto sequer de compaixão comigo mesmo, quanto mais com elas. Tantos anos passaram, meu caro, e alguns desses insistem em permanecer – eles não querem acabar; eu não quero que eles acabem.

É importante atualizar os sentimentos, mas  continuo a compartilhar um pensamento antigo com uma amiga: o passado é nosso amor mais platônico. Se um existencialista bigodudo ainda existisse em carne e osso, talvez desse um pitaco como “um ídolo!”. Pois é, um ídolo mesmo. É confortável tê-lo sempre por perto, pois me exime de pensar coisas novas, inconvenientes e complicadas em parte. Porém, de uma forma ou de outra, um novo eu surge todos os dias, e ignorá-lo é um perigo sem precedentes. No começo ele é apenas pele nova; depois cabelo de forma e/ou cor diferentes; aí vem a mudança do olhar, talvez mais inseguro, ou talvez mais distante, ou até mesmo mais perspicaz. Ideias – “boas” ou “ruins” – também inundam cada centímetro de massa encefálica dia após dia, até entrar em metástase. Se não forem acompanhadas de perto pela autocrítica, essas mudanças tornam-se entraves existenciais consideráveis posteriormente.

São noites mal dormidas. Dias sem fim. A vida que não prossegue e permanece estagnada em conceitos que agora parecem meros preconceitos (é, nem eu entendi como uma coisa posterior pode tornar-se algo “pré”, mas vale a ideia). Ler livros? Que… Vozes demais. Aquelas vozes já citadas, internas e incansáveis. Então dê ouvidos a elas, seja compreensivo e humilde – afinal é consigo mesmo. Faço uma pequena reflexão aqui: como se expandir para o mundo como um ser político e ético se não se faz nem um esforço para a “auto-compreensão”? É uma reflexão até desgastado pela saliva, tinta e gestos de outras pessoas, mas sempre válido para ser apresentada.