Madrugada: aí está(va) você.

É tarde. Muito tarde. Cansei de ler sobre Kelsen, Dworkin, Hart… Procuro no silêncio dessa madrugada algo de útil sobre o que escrever. Radesh (o gato mais humano do mundo) me olha com desprezo. Será se ele aprendeu comigo? Quem sabe, quem sabe. A luz desse, sei lá, abajur (?) já começa a incomodar meus olhos, que pedem arrego, mas o café, que quase nunca tomo, é um ditador impiedoso. É uma tortura eterna. Sinto apenas os meus pensamentos fluírem com muita lentidão enquanto meu corpo se encontra numa dimensão diferente. Poxa, como estou cansado. Porém ainda há uma missão a cumprir: achar algo para cumprir. Pensamento circular… É só isso que tenho ouvido ultimamente. Pouca coisa tem um fim claro, por que eu teria que ser assim? Procuro a todo momento uma distração para que eu não me sinta resumido a uma coisa só. Cara, como sou inquieto.

Certo. Levanto-me e fico olhando, olhando, olhando. Agora perdi meu pensamento. Normal. Então ajeito meu passo e vou beber uma água ou comer um iogurte mesmo, só que esses vão acabar em algum momento. É acabou… Iogurtes são metáforas também. Está muito tarde, e acho que não vou chegar a mais lugar nenhum. Problema, quero continuar divagando. Não é um caso de estar bem ou não, eu bem que queria, na verdade, sentir algo em meio a esse estado de inconsciência que vigora agora. Tá bom, eu sou exagerado mesmo. Simplificando as coisas: estou “aziado”. É, eu entendo os gatos mais do que nunca.

Tirei uns minutos dessa madrugada que já tem cara de dia seguinte pra avaliar minha condição humana anterior. Li meus textos. Eram bons. Eu era bom. Entenda, “bom” porque servia bem ao meu propósito de falar as coisas de forma floreada. Dava um brilho ao que eu tinha pra falar, pois o que me faltava de expressividade no rosto sobrava-me de criatividade “bonitinha”. Gastei, abusei e agora sobrou esse resto de gente que agora tecla com ceticismo. É fase, é fase. Não estou nem cético quanto ao sentimentalismo ou algo parecido; na verdade estou cético com relação a minha pessoa. Acho que o sintoma mais claro é essa auto-degradação. Não é o fundo do poço, mas já sinto gosto de uma água mais barrenta. Gosto de chão depois de acordar de um sonho estranho e perceber que não era por menos: a cama era, na verdade, o piso do meu quarto.

Como era bom aquilo tudo. Sentia-me novo a cada momento de loucura. Loucura que hoje é esquizofrenia, pois vejo entidades fantasmagóricas em cada canto dos meus dias. Mas prefiro dar uma de Nietzsche – velhos tempos, heim? Mas a comparação para nem na metade, pois não tenho a coragem que ele tinha.

Não, não era só dizer que te eu te amo etc e tal. Bah! Eu queria tua boca, teu calor, o palpitar ingênuo do teu coração. Eu queria tua paixão louca, a energia do teu olhar para despertar mais ainda a coragem que eu tinha para dizer que certamente eu te queria de todas as formas possíveis. Eu queria te amar em palavras, versos e em beijos e desejos também…!

Sou um burocrata, percebo. Ou um economista? É, tenho que saber lidar com a escassez. Ou seria eu um “homem mau”? Circunstancial… Nem sei, nem sei.