Complexo das letras.

Chegou hoje. Chegará amanhã. Ontem já chegou e já foi, passar bem. E desse momento mais quero fugir que saborear seja lá o que tiver para isso. Toda vez que toco os dedos no teclado, sinto que falta algo, e já tenho previsto todas as palavras que aparecerão no espaço em branco da tela do computador. Sinto falta da minha conversa fervorosa sobre política, tempo, sociedade, poesia, música. Passado, passado, passado… Passado. Há tanta coisa para dizer e eu só consigo pensar nisso. Talvez por isso a verbalização do meu pensamento tem sido tão simplória, tão fraquinha. Disso só posso concluir que tem me faltado coragem (isso me lembra uma música). Por isso, pus numa meditação eterna, mas bem turbulenta, sem olhos fechados e paz interior. Deixei o tempo passar mesmo, larguei algumas coisas de mão, outras ficaram para domingos à noite, ou segundas até 3h da manhã; e  para algumas pessoas eu esqueci de falar o necessário e disse menos que o suficiente. Funcionou muito não… Persistiu o fato de que eu preciso de uma palavra diferente. Não precisa nem ser minha. Na verdade é melhor que seja de outra pessoa, acompanhada de um olhar e um sorriso diferentes.

De fato [de fato] mesmo, minha cara de tédio só aumentou com certas coisas. No dia dos namorados me pediram um texto etc, aquela coisa toda. Mas sinceramente o facebook me fez desistir, assim como os diversos sapos com corações em exposição em todos os tipos de lojas possíveis. (Sinto que estou parecendo um vlogueiro chato qualquer que procura algo no dicionário sobre o que reclamar). “[…]senhor, piedade, dessa gente careta e covarde[…]”. Já me emocionei e gastei mais nesse dia de junho. Entendo que isso foi uma extensão da minha agonia com uma certa pompa cotidiana das pessoas. Dito pelo não dito; nada dito; pouco dito; ditado, ditadura, sei lá… É mais que um jogo de palavras. De uma maneira ou de outra, as coisas têm sido opressoras nesse mundo. Ou eu fui perceber isso melhor agora.

Alguns dias, pessoas têm me oferecido palavras novas e mais reconfortantes, mas sempre tento me livrar desse estado de graça por saber que a coisa toda tá uma merda. Minha mente logo faz um esforço contrário a esse pensamento, e me propõe que o niilismo é apenas uma forma cômoda de reclamar e não fazer nada por dizer-se cansado de tudo [aquilo que ainda nem vi]. Dessa tese e antítese tem surgido uma síntese ainda sem corpo definido, até porque meus pensamentos andam lentos e previsíveis: procuro um forma nova de ser enquanto um alguém racional. Isso demanda tempo e paciência [dos outros]. Por vezes acho que, se eu pudesse, ficaria a vida toda deitado olhando o sol surgir e desaparecer, dando lugar às estrelas e à lua – posso nem chegar ao nirvana com isso.

Como se percebe, esses parágrafos não tem uma relação muito explícita, nem vou tentar construí-la aqui. Foram escritos num mesmo dia, porém em momentos [mentais, espaciais e temporais] diferentes. Ainda bem que o ENEM  já foi. Não aguentava mais aquela coisa toda (necessária, admito). De qualquer forma, gostei do processo. A partir dele pude visualizar muitas reações cotidianas minhas. Sono, interesse, esforço, frustração, desistência parcial, sono, raiva, vontade, ímpeto, resignação, alívio, sono. A vontade de dormir aparece várias vezes, percebo. Só quero dormir e sonhar com algo melhor mesmo afinal.