O fruto do louco.

Finalmente um dia frutífero. Finalmente as árvores da realidade resolveram me dar o que comer. Apreciei cada mordiscada dessa fruta proibida, e talvez até me condenem por isso, assim como Adão e Eva foram. Simplesmente pelo fato de ousar além do “certo” – e disso lembro algumas reflexões antigas que surgiram quando da minha fase vulcânica de transformar tudo em tese e antítese. Nunca me cobrei sínteses… Elas não existem de fato em si, pois mais tarde acabam transmutando-se em uma tese, velha, em estágio final de putrefação.
Pensando melhor, acho que eu transformei a mim mesmo numa síntese defeituosa, e o problema de tornar-se algo assim é o simples fato de que se deixa de viver para basicamente permanecer. Torna-se, portanto, um resultado, um produto acabado. O ser humano não é isso, e não é mera concepção idealista… metafísica, o que quer que seja dito como algo das nuvens. É pura constatação por experiência própria – valendo dizer que sou eu a cobaia principal, apesar de que eu já utilizei muita gente para esses fins, mas nesse caso por meio de observações cotidianas. (É por isso que eu insisto na utilidade intelectual do transporte público).

Até agora gostei do que li de mim mesmo nesse texto. Sinto a desorganização presente em cada período, repleta de desespero pela mudança. Ao contrário do que tenho vivenciado ultimamente nos ambiente opressores chamados salas de aula – que por sinal deveriam ser ambiente de emancipação do intelecto e do ser, quem sabe -, a escrita sobre a vida deve ser nada metodológica e o mais abstratamente concreta possível, além de, partindo da própria estrutura da frase anterior, repleta de contradições (para quem conseguir definir com palavras o que viria a ser “abstratamente concreta” eu darei um doce de batata doce).
Eu tinha esquecido essa escrita… Fui submergido por uma torrente de palavras sem gosto, textura ou odor. Palavras que teoricamente buscam expressar pensamentos nobres. Não nego essa última parte, pois posso dizer que aprendi muito com esses textos, porém esse processo destroçou a minha outra parte – pulsante, ativa, vívida… A palavra jurídica destrói e deixa pouco no lugar. As que eu mais apreciava, talvez até amasse, pois era com elas que me fazia presente no mundo.

No meu famoso canto sombrio permaneci calado demais, pensando em praticamente nada de útil. Apenas esquecendo e esquecendo… Mas hoje eu comi do fruto proibido, e já sinto renascer a minha loucura sadia. Espero que essa árvore da qual me servi venha a dar frutos para sempre daqui pra frente.

Continua… Algum dia.