Sorriso.

Essas músicas…
Bem…
Não me são estranhas.
Só não sei cantá-las;
sei nem a letra;
sei mesmo é de nada.
Falta-me um sorriso.
.
Mas não me são estranhas!
Por isso continua.
Prossegue o canto,
que eu vou ouvir.
Mas não olha pro meu rosto!
Está meio cinza
– de sempre.
.
A boca rija tem a lingua impaciente,
porém presa entre meus dentes.
…E a saliva vai acumulando…
Até que engulo com uma careta
qualquer coisa pra dizer.
.
Termina a canção com o que preciso.
Tão metafisicamente concreto
é esse sorriso,
que me deste sem saber!
Mas, insisto,
não olha pra mim ainda.
Ainda…
.
Preparo eu, então,
uma canção.
Uso matemática complexa,
abstrações da mais pós-moderna filosofia crítica,
e até um pouco de física:
é pra entender a minha inércia.
.
Minha canção tem a idade do universo!
Mas percebo, frustrado,
que apenas fiz um esboço torto.
É apenas um desenho do que vi.
Uma momento não pode ser, mensurado, calculado…
.
Chego em casa bêbado de mim mesmo,
cansado, triste, impaciente!
Uma dose de tinta e um maço de papel
é tudo o que quero,
necessito e grito!
A lingua já é livre:
é meu polegar, indicador e médio.
.
Acabei.
Tudo, tudo e nada,
pois acabar é improvável.
Por isso sussuro aos teus olhos
– e aos ouvidos também –
que a canção sobre aquele sorriso
nunca terá fim,
e será de mais ninguém.
Rodrigo Viana Passos